As imagens que Manuela Navas constrói nascem de um lugar de silêncio e reflexão, onde a artista busca compreender a si mesma e as narrativas que a antecedem. 

A pintura como espaço de escuta, memória e invenção atravessa a produção de Manuela Navas, artista que passa a fazer parte do catálogo da Janaína Torres Galeria e que reafirma, em sua trajetória, a potência da arte latino-americana contemporânea. Em diálogo com a Philos, a artista apresenta sua prática que se revela como um gesto de investigação contínua — um campo sensível onde identidade, afeto e história se entrelaçam a partir de um território profundamente íntimo.

Ao integrar o programa da Janaína Torres Galeria, que celebra uma década de atuação, Manuela Navas se insere em um contexto curatorial que valoriza tanto a singularidade de cada trajetória quanto o diálogo entre artistas e linguagens. Em um momento em que o circuito artístico demanda cada vez mais abertura e diversidade, sua presença aponta para futuros possíveis: mais plurais, mais atentos e mais comprometidos com as histórias que ainda precisam ser contadas.

A pesquisa artística de Manuela integra sensibilidade, qualidade e uma abordagem temática muito relevante para a contemporaneidade. Manuela também traz uma versatilidade e democratiza as artes visuais, quando dialoga com outras áreas artísticas como a música, a literatura e a moda. Ela é uma artista com muito talento e tem cravado o seu espaço na cena brasileira e internacional. Por tudo isso, tê-la conosco é uma grande honra e alegria. —Janaína Torres

Sem partir de intenções rígidas, Manuela Navas encontra no próprio fazer artístico, o caminho da obra. Cada pintura se revela ao longo de sua construção, como uma conversa contínua consigo mesma. A tela deixa de ser suporte passivo e passa a responder, tensionar e sugerir, instaurando um diálogo em que gesto, cor e composição emergem de forma intuitiva, mas profundamente implicada com um repertório sensível que inclui memórias pessoais, registros familiares e atravessamentos vindos da literatura, do cinema e da música.

A diversidade é matéria constituinte de nosso povo e isso enriquece e diferencia nossos artistas mundo afora. No caso de Manuela, ao trazer o destaque para a figuração da mulher negra, revisitando sua própria história, referências e imaginário, ela coloca no centro uma questão relevante para a história do Brasil: trazer narrativas que contem a história do povo negro pelo viés da liberdade e alteridade – condições que sempre envolveram e ainda envolvem uma luta cotidiana e continua. Assim, podemos dizer, definitivamente, que contar com Manuela como uma de nossas artistas representadas reforça o compromisso de criação de espaços mais plurais dentro do circuito artístico nacional e global. —Janaína Torres

Ao refletir sobre sua condição de mulher negra, em deslocamento constante entre territórios e experiências, a artista inscreve no trabalho um duplo movimento: olhar para si e, ao mesmo tempo, ampliar esse olhar para o outro.

Manuela Navas, Espelho (série black to the future), 2025

Nesta entrevista, a Philos mergulha nos processos, referências e inquietações que estruturam essa produção. Da construção intuitiva da imagem ao desafio de dialogar com a literatura, a conversa revela uma prática artística que se faz no entre: entre linguagens, entre dentro e fora, entre o que se sabe e o que ainda está por vir.

Você faz um recorte notável ao nosso patrimônio maior: a vida. E principalmente a vida das pessoas comuns, as paisagens ao mar… documentando os instantes com sofisticada perspicácia de quem conta uma história. De onde surgem essas imagens?

As imagens do meu trabalho surgem, antes de tudo, de um lugar de silêncio. É um momento em que eu paro e tento entender quem eu sou e também as histórias que vieram antes de mim para que eu pudesse estar aqui. Mesmo que o trabalho se desdobre em diferentes séries, que caminham para direções diversas e tentam comunicar coisas distintas, existe uma origem comum: as minhas próprias questões. Questões sobre o existir, sobre família, sobre relações, sejam elas românticas ou familiares, sobre identidade. A partir disso, eu recorro a um repertório muito íntimo. Uso registros em VHS da minha família, imagens que guardo, memórias, histórias que me foram contadas. Existe um microcosmo familiar que atravessa fortemente o meu trabalho como referência imagética. Mas, mais do que isso, eu diria que tudo parte de um lugar profundamente subjetivo, quase como um campo de perguntas. É desse espaço que as imagens surgem.

As imagens que Manuela Navas constrói nascem de um lugar de silêncio e reflexão, onde a artista busca compreender a si mesma e as narrativas que a antecedem. Suas pinturas tensionam fronteiras e ampliam narrativas, colocando em evidência histórias que, por muito tempo, foram silenciadas e marginalizadas.

Manuela Navas, A refusal to look, 2026

Como você escolhe e elabora a sua gestualidade na pintura? Quais expressões ou atmosferas você deseja revelar nos personagens que você retrata? Há um gesto em que os elementos contam além da própria figura…

Eu não inicio uma pintura a partir de uma intenção completamente definida. Quando penso em uma imagem, no que quero representar, não estou exatamente buscando uma expressão ou uma atmosfera específica de forma consciente. As coisas vão se revelando no próprio fazer. É no decorrer da pintura que eu começo a entender o que está sendo construído ali. Não é um gesto premeditado, é mais uma espécie de conversa comigo mesma. Pintar, para mim, é um ato de pensamento. Um pensamento que não se organiza antes, mas que acontece junto com a imagem, a cada pincelada. Claro que existe um ponto de partida, uma ideia inicial, talvez uma história que eu queira tocar ou da qual me aproximar. Mas a intencionalidade do que aquilo vai se tornar não está dada de antemão. Ela se constrói no processo, quase como algo que se desvela aos poucos, inclusive para mim. A gestualidade também nasce desse lugar. Eu vou experimentando, testando, criando relações entre os elementos, muitas vezes de forma muito íntima, até difícil de traduzir completamente em palavras. Talvez toda imagem carregue alguma intenção, mesmo que não nomeada. Mas, no meu caso, o que mais me interessa é esse estado de descoberta contínua. Mais do que afirmar algo, a pintura é, para mim, uma forma de pensar e de pensar junto com o que ainda não sei.

De que maneira você dialoga com os imaginários sobre os corpos negros das suas pinturas – é uma forma de confrontá-los, deslocá-los e reinventá-los a partir do seu olhar?

Eu gosto de pensar que só me proponho a falar sobre aquilo que eu, de alguma forma, sei ou que estou tentando entender. E o que eu tento entender é, antes de tudo, o que é existir. Existir como uma pessoa negra, existir nesse território que é o Brasil, existir quando me desloco para outros lugares. O que é ser mulher, ser uma mulher negra, ser mãe, ser filha, amiga, irmã, existir atravessada por todas essas camadas. Quando eu falo, portanto, não é exatamente sobre o outro. É sempre uma tentativa de me aproximar de mim mesma. Mas essa experiência nunca é isolada, ela inevitavelmente se expande. Existe algo de universal que emerge quando a gente olha atentamente para nós mesmos. Eu não sinto que meu trabalho parte de uma investigação externa, nem de um desejo direto de confronto. Ele nasce muito mais como um movimento de compreensão. Um gesto de escuta e de aproximação do que sou e do meu caminho. E, nesse percurso, cada pequena resposta abre uma nova pergunta. E é nesse deslocamento contínuo que algo também se transforma na forma como eu vejo o outro. Então, quando eu pinto corpos negros, existe esse duplo movimento: eu estou me olhando, mas também estou criando uma possibilidade de ver e de reconhecer o outro. Como se, nesse gesto, as fronteiras entre um e outro se tornassem menos rígidas.

E a partir desta técnica aguçada — que você mesmo desenvolveu ao longo dos anos de fazer — quais os papéis desempenham a cor, a luz e a materialidade da sua pintura?

Para além da narrativa presente em cada pintura, eu sinto que a cor ocupa um lugar central no meu trabalho. Mas a forma como ela aparece não faz parte de um planejamento rígido. Não existe, para mim, um estudo prévio completamente definido. Eu começo desenhando, e é no próprio fazer que as cores vão se apresentando, quase como se cada parte da imagem pedisse a próxima. É um processo muito intuitivo, muito guiado pelo sentir. A cada decisão, outras se desdobram. Quando eu aplico uma cor, a tela responde, sugere, tenciona, abre novas possibilidades. Existe uma espécie de escuta contínua. Não é que não exista um entendimento sobre cor, luz ou composição, mas, na prática, o que me move é esse diálogo. Cada pintura parece querer dizer algo de um jeito próprio, e eu vou acompanhando esse movimento. A luz, a sombra, a própria materialidade surgem nesse mesmo fluxo. Elas não são elementos previamente resolvidos, mas construídos na relação direta com a tela, a cada pincelada. Existe, claro, uma técnica, uma ciência por trás de tudo isso, mas, para mim, a pintura acontece nesse espaço mais fluido, onde o controle cede lugar à troca. No fim, é sempre uma conversa. Eu proponho algo, e a pintura responde.

A prática da artista também se expande para além da pintura, dialogando com outras linguagens como a literatura, a música e o cinema. Esse trânsito amplia as possibilidades de leitura de seu trabalho e o insere em uma rede de atravessamentos sensíveis que complexificam ainda mais sua poética. Nesse sentido, sua produção se constrói no entre: entre dentro e fora, entre memória e invenção, entre o íntimo e o coletivo.

Manuela Navas, Dança n.9: burburinho, 2025

Outros dos seus suportes são também os livros: quais poéticas e artistas têm lhe inspirado no seu processo mais recente de criar? Ao que parece, sua criação parte e muito também das suas leituras e aspirações poéticas. Qual o lugar da poesia na sua narrativa e na sua vida?

Eu sempre usei referências que vão muito além da imagem. Grande parte das minhas pinturas nasce, na verdade, de atravessamentos: músicas que escuto, livros que leio, filmes que me deslocam. Muitas vezes, o que sustenta uma imagem não é o que eu vi, mas o que eu senti a partir dessas outras linguagens. Existe em mim uma inclinação para ficcionalizar a experiência, para não aceitar a realidade como algo dado e fechado. Eu gosto de pensar o existir também a partir da invenção, daquilo que a música, a literatura, o cinema e outras formas de narrativa permitem expandir. A poesia, para mim, está em tudo. Ela não ocupa um lugar isolado, mas atravessa a maneira como eu percebo, construo e elaboro o mundo. Está nessa relação entre diferentes linguagens, diferentes formas de contar e de sentir a vida. E esse processo não é solitário. Existe algo de cíclico nele. Para que algo meu emerja, eu preciso também do encontro com o olhar do outro, com aquilo que já foi dito, escrito, cantado, imaginado. Criar, então, se torna esse movimento entre dentro e fora. Eu me volto para mim, mas levo comigo tudo o que me atravessa. No fim, talvez seja isso: uma tentativa contínua de me compreender, mediada por tudo aquilo que o mundo já produziu de sensível e que eu acessei e internalizei. O desafio de produzir pintura para livros passa, primeiro, por uma mudança de posição.

Sobre o tema — literatura — você também tem debruçado sua produção em páginas de livros. Recentemente foi agraciada com um prêmio importante para Chupim, co-produzido com Itamar Vieira Junior. Quais os desafios de produzir pinturas para livros e como se dá esse fazer que parte da intrigante relação entre as palavras e a pintura?

No meu processo, a pintura costuma nascer de um movimento muito solitário, de uma pesquisa íntima, que muitas vezes começa pela escrita, ainda que seja uma escrita para mim mesma. Quando o texto vem de outra pessoa, esse eixo se desloca. No caso de Chupim, a partir do texto do Itamar Vieira Junior, gênio da literatura que temos no Brasil, o desafio foi entender como entrar nesse universo com respeito, sem perder a minha própria linguagem. Mais do que ilustrar, me interessava estabelecer um diálogo. Pensar: de que forma eu posso responder a esse texto? Como traduzir, em imagem, não apenas o que está dito, mas também os seus ritmos e seus silêncios. É nesse momento que outras decisões começam a emergir: a cor, o gesto, o estilo. Tudo passa a ser também uma forma de escuta. Como essa pintura pode conversar com essa escrita? Existe, claro, um desafio de linguagem, de escolha, de aproximação. Mas também existe algo muito potente nesse encontro. A pintura deixa de ser um gesto solitário e passa a se construir em relação. E, nesse processo, criar se torna menos um ato isolado e mais uma conversa, um espaço compartilhado onde duas sensibilidades se atravessam.

Ao trazer para o centro a figuração da mulher negra, Manuela Navas contribui para a elaboração de novas narrativas visuais sobre o Brasil, pautadas por liberdade, alteridade e complexidade histórica. Agora ela inaugura uma nova fase em sua carreira sendo representada por uma das mais sólidas e inovadoras galerias de arte do país.

Quais os anseios para a sua carreira e o que podemos esperar em torno da sua produção futura a partir deste novo horizonte?

Eu sinto que cada nova fase traz, inevitavelmente, um outro tipo de maturidade. Um outro olhar sobre o que já foi feito, mas também mais clareza sobre os próximos passos: o que seguir, o que deixar, o que escolher dizer agora. Nesse momento, com a Janaína Torres Galeria, existe também um lugar de segurança. Uma possibilidade de enunciar certas questões de forma mais direta, mais consciente. E, para mim, isso passa muito pelo discurso, por entender com mais nitidez o que atravessa o meu trabalho. Ao mesmo tempo, não se trata de um rompimento, mas de continuidade. De seguir explorando narrativas, suportes, materialidades, de permanecer em movimento. Talvez a mudança esteja menos no que eu faço e mais em como eu faço. Existe um desejo de aprofundamento, de escuta mais atenta, de um compromisso mais consciente com o próprio trabalho. Não penso essa maturidade como um lugar de certeza ou de controle. A experimentação continua sendo fundamental, e o erro também faz parte desse processo. Mas existe, sim, um afiar do olhar. E, nessa nova fase, o que me move é isso: continuar fazendo, mas com mais presença, mais consciência e também mais respeito por tudo o que o trabalho vem se tornando.

Manuela Navas, Onde tudo chama saudade, 2026

Em celebração aos seus dez anos de trajetória, a galeria Janaína Torres reafirma seu compromisso com uma atuação coerente e alinhada a princípios que, desde a sua fundação, orientam sua inserção no circuito artístico. A década marca não apenas um momento comemorativo, mas também de revisão e consolidação de um percurso pautado pela consistência curatorial e pelo fortalecimento de vozes artísticas diversas.

Para celebrar este ano que marca a primeira década de existência da galeria revisitei toda a nossa trajetória e é muito bom ter a percepção de que seguimos coerentes e firmes em nosso propósito. Inauguramos, Deborah Paiva (1950–2022): Uma Antologia, com curadoria de Tadeu Chiarelli. Tivemos um reconhecimento enorme tanto da classe artística, mercado e imprensa. Deborah foi uma artista muito íntegra, demonstrando-se sempre fiel à sua pesquisa artística, independente de tendências ou pressões externas. Essa postura posiciona o artista quanto à credibilidade e longevidade de seu trabalho e, nós, aqui na galeria também guiamos o nosso trabalho desta forma. —Janaína Torres

A galeria apresenta atualmente na SP-Arte um projeto especial concebido em colaboração com Heloisa Amaral Peixoto. A proposta tem como eixo o figurativismo humano, explorado como vetor para ampliar diálogos sobre questões contemporâneas. Participam deste projeto artistas como Andrey Guaianá Zignnatto, Caio Pacela, Dee Lazzerini, Jeane Terra, Laíza Ferreira, Liene Bosquê, Marga Ledora, Deborah Paiva, Osvaldo Carvalho e Sandra Mazzini, além da própria Manuela Navas.

A agenda expositiva do ano segue intensa. Em maio, a galeria apresenta a mostra individual de Andrey Guaianá Zignnatto, com curadoria de Alexandre Araújo Bispo. Já em agosto, uma exposição coletiva celebrará oficialmente os dez anos da instituição, reunindo artistas que marcaram sua trajetória. A programação inclui ainda a participação na ArtRio e, no encerramento do ano, a realização da exposição individual de Manuela Navas.

Ao articular memória, celebração e projeção de futuro, a galeria Janaína Torres reafirma sua posição no cenário contemporâneo, investindo em projetos que dialogam com o presente sem abrir mão da consistência que define sua história.


Jorge Pereira é editor-chefe da Revista Philos, Biomédico pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Mestre em Genética pelo Programa de Pós-Graduação em Genética da UFPE (PPGG-UFPE) e Especialista em Adaptações Literárias para o Cinema Brasileiro pelo Instituto Moreira Salles (IMS-SP). Finalista do Prêmio Jovens Talentos do Mercado Editorial 2023 do PublishNews. Colaborador de importantes revistas do grupo Nature, como a Frontiers in Microbiology e Scientific Reports; Genetic and Molecular Biology, Planta Medica e Molecular Biology Report.

Avatar de Philos
Publicado por:Philos

A revista das latinidades